pessoalidades

Para que (ou porque) você lê?

Não, essa não é uma pergunta de cunho científico.

Não, eu não quero saber dos últimos estudos sobre importância da leitura para o desenvolvimento pessoal, ou para capacitação profissional, informação cidadã ou mudança de vida.

Porque você lê?

Pergunta besta, assim, à queima-roupa… mas um assunto que tem andado na minha cabeça, a pergunta que não quer calar que vira-e-mexe é protagonista no meu cérebro.

Ler é uma das atividades de atenção integral que ocupam mais tempo na minha vida. Eu leio desde que me lembro, em geral leio muito, e quando não leio, sinto falta.

Antes dos meus 12 anos eu já havia lido Sherlock Holmes, alguns livros do Sidney Sheldon, toda a coleção infanto-juvenil do Monteiro Lobato, Coleção vagalume; os autores brasileiros para “jovens”, como Stella Carr, Pedro Bandeira, Ganymédes José, Márcia Kupstas. Quase não existiam “romances YA estrangeiros” disponíveis como hoje, e você se virava como podia.

Eu lia porque lia. Eu lia porque não existia internet para me fazer “viajar”, não haviam as facilidades do dvd e do streaming, e fita de vídeo era caro até para alugar. Se você tivesse um pouco mais de dinheiro, teria um videogame; se tivesse uns trocados que sobraram de comprar pão, uma “lan house de games” servia. A imaginação era alimentada à base de brincadeira na rua, com os coleguinhas, filmes na TV aberta ou… livros.

Eu lia porque lia. Lia porque gostava de ter vários mundos na cabeça. Não conhecia quase ninguém que lia o mesmo que eu – além da minha mãe; a maioria dos coleguinhas não gostava de ler. Mas eu lia, e nunca achei um desperdício de tempo o período em que ficava agarrada num livro – e sempre foram períodos MUITO longos, a maior parte do meu tempo livre. Minha carteirinha da biblioteca era extensa, e eu dava um jeito de pegar ônibus de graça com a blusa do colégio (não tinha isso de cartão de passagem :P) para ir até a biblioteca pública, no centro da cidade.

Ler para viajar. Ler 70, 80 livros em um ano. Ler de madrugada, porque o livro está tão bom que não dá para largar na metade. E ninguém nunca nem ficar sabendo de todos os mundos que habitam sua cabeça – só a “tia da biblioteca” e sua antiga carteirinha cheia de datas de devolução e assinaturas.

Corta. Cenas da vida hoje:

Hoje eu pago meu IPTU. Trabalho. Já sou graduada e fiz mestrado, elementos mínimos para o mercado de trabalho hoje em dia. Tenho dinheiro para comprar livros, e os compro. Tenho biblioteca próxima, pública, imensa. Trabalho em biblioteca, e aqui tem setor de literatura.

Pilha de livros comprados na Amazon Day

Mais livros!

Mas sempre que eu planejo passar um dia lendo, eu sinto uma dorzinha, uma pontada no peito. Começa com a escolha dos títulos que serão lidos, e termina com a sacana pergunta que tem me tirado o sono: PARA QUÊ?

Eu não sei se vocês sentem o mesmo, mas eu tenho hoje um sentimento que não tinha em minhas leituras púberes: a sensação de que se eu me calar sobre o que li, é como se não servisse de nada. Se eu não compartilhar as coisas que eu leio, o link que faço entre as leituras, não compartilhar o conhecimento dessa forma, de que terá adiantado ler por anos a fio e efetuar as mais diversas conexões entre assuntos e autores?

A sensação de pegar um livro, com a capa linda e bem editado, e respirar, e sentir o cheiro… e… postar no instagram, para dividir com todos, lógico! E ver as hastags com o nome do autor e o título do livro. E fazer parte daquela massa de pessoas selecionadas e de bem gosto que decidiram ler o mesmo que livro que você. Ou escrever no blog, afinal, você PRE-CI-SA dividir sua opinião com o mundo!

Onde termina a necessidade de compartilhar e começa o carinho no ego?

Exemplo besta: eu li O conto da Aia em 2015, um pouco antes de toda essa febre, da republicação do livro e de série de TV. Inclusive, acho que li antes de montar o blog, por isso nem resenha ele tem! Livros estarem “na moda” é uma coisa maravilhosa, especialmente um tão bom e cheio de significados. Mas ele não aparece no meu instagram. Eu não vou ficar entrando em todos os IGs de colegas e ir falando “eu já li”, “eu já li”. O fato de não explicitar que tenho o conhecimento dessa história em nenhuma rede social, a torna “menos lida”?

Eu sempre senti falta da interação com pessoas que lessem o mesmo que eu, e agora que isso está ao meu alcance, eu sinto como se a leitura estivesse deslocada em seu papel.

Na verdade, depois de toda essa falação, acho que minha dúvida é: o que você faz com as histórias que você lê, que você absorve? Elas têm serventia? Em quê? Você só acumula as histórias dentro de si ou as transborda? Se te dessem uma biblioteca em um canto isolado, em que você pudesse ler tudo o que quisesse, mas não tivesse como compartilhar essas ideias e leituras com ninguém… isso valeria a pena?

Ler é colocar tijolos no meu muro. Mas eu estou construindo o quê? E mais: o quanto isso importa?

 

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5 pensamentos sobre “Para que (ou porque) você lê?

  1. Pingback: A literatura como remédio, Dante Gallian | MUQUIFO LITERÁRIO

  2. Paullaaaaaa! Tudo bem? Que saudade do muquifo!
    Sobre o assunto, acho que podemos fazer um paralelo: antigamente (na época em que só os nossos pais liam os mesmo livros que a gente) e os tempos atuais (que a gente compra livro pela internet por toneladas).
    Atualmente existe essa coisa maluca de compartilhar a vida nas redes sociais, e se não tá lá é como se não tivesse acontecido ou como se não fosse válido (passeios, viagens, comida, festas e as leituras também não escaparam). A internet não é a culpada, ela não obriga ninguém a compartilhar nada, acredito que é um comportamento do momento em que estamos vivendo, uma hora passa ou “evolui”. Mas é estranho pensar que há alguns anos, você lia um livro, o apreciava, pensava nele por meses e ninguém nem sabia. Hoje estamos nesse momento de partilhar as experiências, então todo mundo quer saber o que todo mundo come/veste/lê/assiste/etc.
    Mas no fundo acredito que a leitura nunca vai perder essa sensação de intimidade que acontece enquanto você lá, sozinho, acompanha a história de “gente que não existe” (no caso da ficção). Não importa o quanto estejamos sendo domesticados a compartilhar tudo que fazemos, a leitura sempre vai ter aquele espaço privado que ninguém pode alcançar. E mesmo que você leia algum livro só porque todo mundo tá lendo e você não quer ficar de fora, o que vale no final não são as discussões calorosas sobre o livro que você e outras pessoas tiveram, o que importa mesmo são aqueles momentos em que você teve de se desligar do mundo, se isolar e ler palavra após palavra.
    O que eu faço com as histórias que eu leio? Eu as levo comigo onde quer que eu vá. E é por isso que as pessoas me veem sorrindo pras árvores e não sabem que, um dia, um certo livro me ensinou tantas coisas sobre as árvores e me deixou com a sensação que tudo o que me foi ensinado através daquela leitura, me foi ensinado em segredo, só eu sei, mesmo que o livro esteja aí, pra quem quiser ler.

    Curtido por 2 pessoas

    • Joooooe! Sinto sua falta por aqui, menino!

      Olha, sua resposta trouze um calorzinho ao meu dia gelado-curitibano-3º!! Eu estava com medo das sensações e coisas serem imaginação/loucura da minha cabeça, sabe? Ler sempre foi um prazer, e eu não acho que deveria deixar nada tirar isso de mim… mas como bibliotecária, eu sou forçada a pensar nas novas formas de leitura, novos públicos, leitores, e tals, e acabo mais me confundindo que esclarecendo 😛

      Mas você tem toda a razão: a leitura é o que levamos dela – silenciosamente.

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  3. Gostei muito da pergunta, vou me animar e escrever sobre isso no meu blog. Já adianto que vejo as coisas com mais simplicidade, eu acho. Leio porque gosto em primeiro lugar e porque a leitura mantém a minha sanidade mental. Mas vale uma resposta mais elaborada.
    Bjs,

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