biblioteconomia

Mais sobre ser bibliotecário (público & universitário, especificamente)

(ou Um post-desabafo rápido para acolher uma alma irritada)

Cena:

Metade dos computadores da biblioteca estão ruins. Os alunos sempre reclamam (óbvio!). Solicitamos, através de abertura de chamados no sistema, que haja uma visita técnica ao setor, mas “não rola”. Ou não tem quem possa ser destacado, ou o problema é considerado “incurável”.

Os alunos dos cursos de graduação e de pós-graduação de Tecnologia da Informação se ofereceram para dar uma olhada nos PCS, diagnosticaram o problema e propuseram a solução; não, melhor, se propuseram a consertá-los, eles mesmos.

Pedimos autorização para a Instituição. Resposta: Pedido negado. Os alunos podem estragar o patrimônio público.

OI? O patrimônio que já está parado há quase dois anos, e em breve se tornará obsoleto? OI? O patrimônio que só está ocupando espaço, e no final alguém vai levá-lo daqui direto para um depósito qualquer?

[Antes que me critiquem, eu sei que não é assim, à moda boi; eu sei que precisamos de autorização e que os técnicos precisam ser supervisionados ao mexer em patrimônio público inventariado – mas acho que deu para ilustrar o absurdo da situação, não? Não há mesmo possibilidade de juntar o útil ao agradável? A ajuda ao necessitado dela?]

Como quem me acompanha já sabe, eu sou bibliotecária em uma universidade pública federal. Sou concursada, e pretendo manter minha vaga. Adoro o trabalho aqui, e adoro ser bibliotecária de biblioteca universitária. Mas, ocasionalmente, eu sou mordida pelo bichinho da revolta. Da revolta contra o sistema burocrático e engessado, que serve para “nos proteger” e termina por nos matar aos pouquinhos.

Não é de hoje que acompanho situações assim. Eu já ouvi sobre a biblioteca que comprou 50 tablets para os alunos e eles caducaram antes de serem disponibilizados para empréstimo; da que não podia eliminar as cadeiras quebradas porque eram patrimônio público (entendo) – e não tinham onde colocar, então o mobiliário quebrado ficava amontoado e juntando bichinhos na biblioteca (não aceito); da que não podia fazer uma página em redes sociais, ou informação em um blog, porque a instituição achava “chato para atualizar” – mesmo nem sendo “eles” os responsáveis pela alimentação de conteúdo.

Eu canso muito disso tudo, sério.

Às vezes a resistência vem de dentro. Difícil conversar com bibliotecárias (falo no feminino porque a maioria é mulher, ainda) que focam mais nos livros do que nos usuários, que se importam mais em “não deixar fazer nenhum barulho” que em criar um ambiente acolhedor – e isso pode, sim, incluir um espaço para conversas. Bibliotecárias que se recusam a rever a política de descarte, que continuam achando que aquele livro de informática de 1982 é muito importante – ocupando um espaço que já está escasso, e que compromete a acomodação do acervo novo. Ou que acha mais bonito ter um monte de livros que não são utilizados, apenas para “ver a biblioteca cheia” do que retirá-los em prol de um acervo mais enxuto e útil.

Os novos modelos de biblioteca, tão necessários para atrair público, para corresponder às necessidades atuais, para agregar valor ao invés de espantar possíveis usuários. Dá para acolher a todos, criando diferentes espaços, ouvindo os usuários e atentando às mudanças de padrão do público. E para isso é preciso enxergar as bibliotecas como dinâmicas e inseridas em seu tempo; é preciso reciclar, pensar diferente das formações engessadas de 20 ou 30 anos atrás. Não estou falando que isso tudo não dá trabalho – mas eu não tô aqui para trabalhar, cacilda?

Às vezes a resistência vem de fora. Vem dos administradores de outros setores, que não enxergam a biblioteca como um lugar importante para a construção de conhecimento; que acham que a biblioteca é depósito, que faz às vezes de vesícula ou apêndice: “é importante, mas podemos passar sem”. O primeiro lugar que tem verbas cortadas e funcionários remanejados. E que, muitas vezes, não tem autonomia. “Quero colocar um mural na biblioteca, me responsabilizo em acompanhar o conteúdo que for divulgado lá” – não pode, tem que ter carimbo do departamento de comunicação da instituição. OK, mas dentro da biblioteca? Não pode ser um carimbo nosso? E querer anunciar clubes de livro e leitura, cursos online gratuitos para os alunos, conteúdo sem custo para a biblioteca? Não pode? Não pode. E até passar pelo tal setor e ser carimbado, já acabou o prazo de inscrições, ou a data dos encontros.

Parece difícil? Welcome to the real world, Neo.

Burocracia, burrocracia (palavra lembrada pelo meu estagiário, tks). Falta de vontade. É mais fácil deixar como tá. Retroação. Cansaço de lutar contra. Há várias explicações para as atitudes acima.

Frase que ouvi hoje, da colega que já está há dez anos como servidora pública aqui: “Uma hora você deixa de se importar, para de ligar e de tentar fazer.” Eu sei que isso é verdade, que uma hora cansa, que dá no saco. Mas eu espero, espero muito, que mesmo daqui a 40 anos eu continue indignada – e tentando fazer alguma diferença!

 

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