biblioteconomia

A escolha pela Biblioteconomia

No início do meu terceiro ano do ensino médio eu fui apresentada ao curso de graduação que me permitiria trabalhar oficialmente dentro dos espaços onde eu passava a maior parte do meu tempo (na época: da biblioteca do Liceu em Niterói, da Biblioteca Pública de Niterói e da biblioteca do SESC Niterói). A cunhada-do-meu-namoradinho-da-época trabalhava na biblioteca da UFF, me apresentou o espaço e me contou que existia um curso só para isso!

[Observação: engraçado como determinadas coisas funcionam: em minha primeira visita à UFF, ainda como aluna de ensino médio, eu me senti uma intrusa. Chegava a andar encolhida, como se alguém fosse descobrir que eu não era graduanda e me expulsar dali. Interessante como não sabemos NADA sobre apropriação dos espaços públicos, né? Que o espaço da universidade é aberto a todos, que ela é financiada com o dinheiro dos nossos impostos… ]

A Biblioteconomia, há muitos anos, tratava do material bibliográfico: essencialmente, livros. E eu amava os livros. Como não querer trabalhar com livros?? Mas, obviamente, o escopo básico da disciplina mudou, e nos dias de hoje lidamos com informação – não necessariamente em livros (inclusive isso gerou muito estresse, influenciou mudanças em nomenclaturas dos cursos superiores, rachas com o Conselho Federal de Biblioteconomia – sim, nós temos Conselho, igual aos de medicina, direito… –  muitos barracos 😛 Mas isso é outra história!).

Mas eu não conheço quase ninguém que tenha feito  Biblio pensando em “lidar com informação”. A maioria dos que conheci, inclusive meus ex-alunos (turma de primeiro ano, respostas sinceras), são atraídos pelo curso porque gostam de LIVROS (ou porque a relação candidato-vaga é baixa, já ouvi muito isso também). Trabalhar com livros, com leitores, indicar leitura para as pessoas, ler muito, olha QUE SONHO!

#sqn

[obs.: da mesma forma, vi gente que DETESTA LER, que não tem saco nem paciência para leitura, entrando para a faculdade de biblio – aí você tá querendo o quê, né?]

Desculpe tirar o cavalinho dos meus leitores da chuva, mas alguns me perguntaram sobre como é ser bibliotecária, especialmente depois de minha epopeia de formação, e eu não vou mentir: não é NADA disso.

Desde o princípio, você se depara com disciplinas que nem sabe para que vai usar (pior: a maioria é realmente importante, e serão válidas em um momento ou outro da sua vida profissional); se você faz o curso presencial em alguma das universidades públicas do país, seus primeiros períodos são de disciplinas genéricas e “chatas”, e muita gente que conheci largou a faculdade antes do terceiro período.

[A ressalva sobre as universidades é porque conheço o currículo-base da maioria das públicas, com formação de 4 anos; não estou inteirada sobre o conteúdo das privadas, principalmente na modalidade EAD]

Tive um núcleo de disciplinas de humanas na UFF (no currículo antigo, que o novo já excluiu todas) que incluía história da arte, três sociologias, filosofia, lógica instrumental, três disciplinas de língua e literatura. Todas disciplinas muito úteis se você trabalha com acervos históricos, estagia em bibliotecas de arte (ou na Biblioteca Nacional, como eu), e, é claro, para sua formação como ser humano pensante, né? Tive três disciplinas para aprender a catalogar o livro, mais três para aprender a classificar, mais três para aprender a indexar. Passei meus primeiros estágios guardando livros na estante (parece besta, mas tem sua importância: sei quase de cor classificações inteiras em CDD e CDU – sistemas de classificação por assunto que organizam a biblioteca). É hard, duro mesmo. E muita vezes muito chato!

E quando você se forma você NÃO LÊ (na biblioteca, digo). O trabalho em biblioteca, diferente do que muitos pensam, não é leve, nem simples, nem “encostado” (a não ser que VOCÊ seja assim, mas isso pode acontecer em qualquer profissão, certo?). Se você está fazendo o trabalho direito, isso vai realmente te dar… TRABALHO.

Ou você vai lidar com processos técnicos, com aquela quantidade muito maior de livros chegando (por doação, compra ou permuta) do que sua capacidade de processá-los; com consertos na base de dados, limpeza do sistema… ou vai lidar com usuários, suas necessidades e reclamações – uma das atividades mais prazerosas, mas mais complicadas também (e, sério, tem dia que é UM PEPINO ATRÁS DO OUTRO!)! Lidar ainda com outros 20 processos diferentes na biblioteca, mas todos trabalhosos e que ocupam todo nosso tempo. Ou seja: nada de tempo para ler, folhear livros e ficar paradinho no balcão com cara de tacho.

Se você pensa em fazer biblio porque “é fácil”, repense – você não está fazendo isso direito. Se você está fazendo biblio só porque ama ler, beibe, vai fazer Letras – não que seja mais fácil; mas você pelo menos LÊ A OBRA para poder analisá-la. Bibliotecários fazem leitura técnica da obra, que é OUTRA coisa.

Biblioteconomia é gestão, é suprir necessidades informacionais, é querer unir informação e usuário, é pensar em 50 formas de fazer a biblioteca funcionar melhor e atrair público.

Ser bibliotecário é ser meio psicólogo, meio adivinho, meio palhaço (às vezes), meio professor. É gostar tanto de leitura que tenta democratizar, naturalizar. É entender a importância que a informação tem na vida das pessoas, seu potencial de alavancar mudanças, seu poder. É encarar gente perguntando se “precisa de faculdade para colocar livro na estante”. Gente que não entende direito para que sua profissão serve, doutores formados, professores, diretores, que te perguntam “mas bibliotecário faz o que mesmo?”.

É uma classe essencialmente parada no país (aqui… procura no google “Library advocacy” pra vocês ver lá fora 🙂 ), apesar dos esforços de alguns grupos maravilhosos (de novo, googla aí: BiblioCamp).

Mas daí (curitibana), se você for um profissional com o mínimo de consciência e animação; se você tiver força para lutar contra a corrente (não posso culpar os que se cansam – pesa MESMO); se você conseguir rir amarelo para o “Biblio o quê?”; se tiver empatia, pensar no usuário, se colocar no lugar dele; se você conseguir ficar genuinamente feliz quando consegue ajudar um usuário a encontrar o que procura (de qual é o filme em cartaz no cinema até o artigo científico em alemão que ele precisava)… Aí ser bibliotecário pode ser uma profissão linda, gratificante.

Ou você pode encostar no seu balcão, não sair de trás dele, e realmente, ler em todo seu período de trabalho. Mas eu não recomendo 😉

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4 pensamentos sobre “A escolha pela Biblioteconomia

  1. Olá, Paulla!
    Passei o meu ensino médio todo pensanso em cursar Biblioteconomia justamente por amor aos livros. Eu pensava realmente que ser bibliotecário me permitiria ler, ler e ler incansavelmente, eu idealiza muito a profissão. Mas tive um professor amigo que me fez declinar dessa escolha e ir para a Letras e de fato, me sinto mais satisfeita com essa escolha do que teria sido se tivesse escolhido Biblioteconomia. Talvez eu fosse uma dessas pessoas que evadiram do curso…
    Gostei dessa postagem porque você bem direta e mostra a realidade como ela é. Talvez ajude outras pessoas.
    Abraços.

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    • Oi Maria!

      Eu te entendo! Também pensei muito em fazer Letras, e no final das contas eu não estaria preparada para o curso. Hoje eu penso em fazê-lo, mas minha visão já é outra, né? Fico feliz que você tenha tido o toque desse professor antes de ter que passar pela desilusão do curso 🙂

      Um abraço tb!

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  2. Gostei muito da sua visão realista da profissão e do curso. Acho que acontece em todas as áreas, imaginamos, idealizamos uma coisa, mas na realidade é tudo muito diferente. E toda a graduação deixa a desejar , vai de cada aluno correr atrás do que o interessa.
    Bjs,

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    • É Pati… eu demorei 8 anos para me formar em Biblio, entre idas e vindas, por causa das idealizações e do choque de realidade. Hoje eu amo minha profissão, mas precisei levar muito cascudo, e aprender muito sozinha!
      Bj!

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