biblioteconomia

Sobre a vida de funcionária pública

[Antes das considerações, uma explicação profissional necessária:]

Eu entrei em exercício em 06 de setembro deste ano; vão fazer dois meses que sou servidora pública federal, em uma das maiores – e mais caras, de acordo com os preços dos livros – bibliotecas, de uma das maiores universidades públicas do país.

Eu sou bibliotecária. E é pertinente dizer que eu demorei 8 anos para me formar em Biblioteconomia exatamente por causa do funcionalismo público.

Eu comecei a estagiar no primeiro dia de aula, em 2005; entre 2005 e 2007 eu passei por diversas instituições, todas públicas – UERJ, UFF, BN. E nesses locais eu encontrei o que se tornou o pavor da minha vida: o funcionário público encostado padrão.

Não me levem a mal, mas acho que vocês sabem do que eu estou falando, da espécie não-rara a qual me refiro. Os seus principais jargões são “Antiguidade é posto”, “Isso não é meu trabalho” e “Não sei para que você está fazendo isso”. Eu tomei pavor da biblioteconomia por causa dessa “espécie”. Na verdade o nojinho foi tão grande que em 2007 eu cancelei a matrícula do curso – não, eu não tranquei, eu cancelei mesmo. Sem chance de retorno. Fui fazer administração em uma particular, com bolsa.

Parece radical? Sim, e foi. Mas quando eu estava na faculdade ninguém falava de trabalhar em setor privado, todo mundo da minha área só falava em concursos públicos;  e eu fiquei apavorada em entrar naquele nicho onde eu não conseguia fazer absolutamente nada! Como estagiária eu pegava alguns erros, uns absurdos, outros nem tanto; e indicava para as bibliotecárias responsáveis: “Achei um erro aqui, de acordo com a CDD…” e a resposta, quase invariavelmente era “Já faço isso há 20 ANOS, quem é você para falar que está errado??” ou “Está errado e vai ficar, porque eu não vou ter o trabalho de trocar no sistema todos os livros que estão errados assim, dane-se”. Isso ia contra tudo que eu pensava, em todas as esferas.

Por ironia do destino, eu comecei a trabalhar com a biblioteconomia, mesmo fora da universidade, e senti falta de terminar o curso. Em 2010 eu prestei vestibular novamente, para a mesma faculdade (sou formada na UFF); e voltei às salas de aula, já com uma visão de mundo diferente. Estagiei na Iconografia da BN, um setor de pessoas apaixonadas pela profissão, que me deram novo fôlego e ânimo.

É importante falar que durante meu período de mestrado eu trabalhei em uma instituição superior privada no Paraná. Uma universidade maravilhosa; uma biblioteca central tinindo de nova, com oito andares, livros novinhos, setor de restauração, café, exposições periódicas. Um sonho. Mas me consumia 10 horas por dia (mais deslocamentos, 12h), onde os alunos gostavam de jogar na cara que tinham dinheiro para comprar aqueles livros (não todos, mas em número suficiente para estressar). E gente, DEZ HORAS de trabalho/dia! Eu terminava o expediente como se tivesse sido passada por um moedor de carne.

O concurso em que passei eu prestei em 2014, antes de ir para Curitiba. Nunca conferi o resultado, e fui chamada, de surpresa, em junho deste ano. Depois de relutar, e desistir, e não querer, aos 45 do segundo tempo, eu aceitei. Voltei para o RJ (só dia de semana, minha casa continua em Curitiba) e assinei minha posse no último dia possível. Eu tive duas motivações principais para vir: o trabalho de 6 horas e a possibilidade de ajudar quem realmente precisa dos meus préstimos, alunos de escola pública que precisam da biblioteca – em especial na área da saúde, onde os livros são caríssimos.

Isso já faz quase dois meses. Nesse tempo eu já tive meus entendimentos, meus confrontos, meus pega-pra-capar. O primeiro pega feio foi com um auxiliar administrativo. Eu precisava de estantes em um corredor para fazer andar um projeto que está parado há dois anos. Isso aí, DOIS ANOS (quem me acompanha pelo instagram viu as fotos do trabalho hercúleo). E depois de muito perguntar ao auxiliar pela montagem, eu o ouvi me responder que ele não fez porque “as estantes precisam ser limpas”. E que ele “não limpa porque não é o trabalho dele”. OK. Respira fundo. Eu entendo. Mas quem limpa? “O fulano, mas ele tá ocupado, só pode limpar em duas semanas”. Então me dá uma pano que eu limpo, preciso disso pra ontem. “Você não vai limpar, você é bibliotecária, isso não é SEU TRABALHO”.

O QUÊ? COMO É QUE É??

Só para esclarecer, meu trabalho é fazer a biblioteca funcionar. É fazer a informação chegar ao usuário. Se para isso eu precisar limpar estante, montar, carregar caixas, trocar móveis de lugar, eu vou trocar! Eu vou fazer! E deixei isso bem claro: quem ele pensa que é para definir o meu trabalho por mim? Isso cabe à minha chefe, e olhe lá! Aí vem a fatídica frase: “Eu trabalho aqui há 26 anos….!!!”; “Você tá animada assim porque é nova, depois você vai cansar e parar com essa palhaçada”.

Olha, fiquei até enjoada. Isso pode até vir a acontecer, mas eu vou batalhar com unhas e dentes para que não seja assim. Eu espero manter essa vontade de fazer para ajudar o próximo; como o próprio cargo já diz, “servidor público” é para servir. O dinheiro dos contribuintes de todo o país está pagando meu salário, e o mínimo que posso fazer é atender, e bem, a todos que me solicitarem. É manter meu ambiente o melhor possível, mesmo com todas as restrições orçamentárias, mesmo que os livros não sejam novos, mesmo que eu esteja na TPM.

Outra implicância foi do uso do crachá. Onde eu trabalhava anteriormente nós usávamos crachá, como forma de sermos identificados pelos alunos – não havia uniforme. Aqui, assim que meu crachá chegou, eu fiz questão de usá-lo, até que reparei que praticamente ninguém usa. E começaram com “hi, tá de coleira, é?” “no meu setor eu não deixaria você usar!”. Olha só, o crachá tem a mesma motivação aqui: me identificar como funcionária da instituição. Ser um ponto de luz aos que chegam com dúvidas e não sabem a quem recorrer. Deixar que o usuário saiba meu nome e posição, para se sentir mais seguro ao me consultar. As pessoas deixam de usar o crachá exatamente para não serem abordadas, e acho isso um absurdo!

A razão de existir da biblioteca é o usuário – se ele não existir e utilizar o espaço, eu não tenho motivos para estar ali!

Implicância 3: horário de trabalho. Posso dizer que estou realizando um dos sonhos da minha vida, que é trabalhar 6 horas. Depois das 10 que eu fazia, isso é um bálsamo. Eu trabalho cedo, exatamente nas minhas horas mais produtivas, e ainda tenho o resto do dia para fazer o que eu quiser: estudar, ler, passear, ir ao cinema, escrever, fazer pesquisas por conta própria, me exercitar, dormir. Ainda assim, ouço os colegas reclamando – alguns queria fazer 4 horas/dia. WHAT? Conheço mais de um que, no final das contas, não trabalha praticamente nada. Chegar às 8, tomar café de 8h30 às 9h10; depois outro, de 10h às 10h30. O almoço é às 11h45, e dura entre 30 minutos e uma hora, dependendo da animação do povo. Depois escovam-se os dentes, bate a preguiça pós-almoço, e a ida para casa é às 14h. Fora que as pessoas estão, sim, sempre no youtube, facebook, compras online. É sério. Olha, no meu entender, se você já está ali por tão pouco tempo, 1/4 de dia apenas (num país onde as pessoas da iniciativa privada costumam trabalhar cada vez mais, mais horas, mais dias na semana), o mínimo que você poderia fazer era TRABALHAR no tempo em que está presente. Right? Pelo jeito eu sou minoria.

As pessoas NÃO PODEM SER DEMITIDAS, e a grande maioria não faz questão de fazer um trabalho de excelência por causa disso (ou nem de trabalhar, verdade seja dita). Eu ouço isso o tempo inteiro. Mas, para mim, antiguidade não é posto, é só uma forma de você ficar cheio de manias e acomodado em um cargo e com tarefas que não mudam – porque você nem quer isso. Eu me recuso a fazer parte desse circo, dessa forma. Isso que me afastou da biblioteconomia uma vez, e já me fez repensar em voltar para a iniciativa privada.

Mas quando alguém fala para mim que não quer trabalhar porque não vai ser demitido, eu respondo que vou trabalhar pra cacete, exatamente PELO MESMO MOTIVO. Eu vou incomodar, sim. Vou trabalhar, sim. Vou tirar coisas do lugar, vou fazer o que estava encostado porque ninguém queria mexer. Vou meter a mão na massa, mesmo que seja sozinha, mesmo que demore muito mais do que com colaboração, eu vou fazer. Não vou ser demitida mesmo 😛

Frase do Rorschach, de Watchmen

Como diz meu amigo Rorschach: Eu não estou presa com vocês; vocês estão presos comigo! Muah-ha-ha!!

Sei que nem todos são assim, nem em todos os setores. Sei que tem gente que é servidor, e tem feito muito; mas na minha área, na minha experiência, esses são a tremenda minoria. Eu tenho visto alguma mudança, sim. Muita gente da leva que entrou comigo já pensa mais em fazer, em trabalhar; a satisfação pessoal tem sido importante para as pessoas da minha geração, vide todos os estudos sobre os profissionais da nossa época, os que tem 30 anos, por agora. Eu tenho esperança de que as coisas mudem, que percebam seu lugar na sociedade, suas obrigações como servidor público – com o público, em primeiro lugar.

Ainda me dói, mas tem sido válido. Muitas pessoas que estavam paradas lá na minha unidade e me viram trabalhando, vieram ajudar, o que me deixou feliz. Talvez com algum empurrãozinho as pessoas se animem. Talvez eu possa ajudar nisso. Mas, se eu não puder, isso não vai me impedir de fazer. Sozinha, que seja.

Estou amadurecendo mais algumas opiniões, e espero que mais para a frente esse quadro mude. Mas, por enquanto, é assim que tem sido meus dias.

PS.

Eu sei que isso aqui é um blog essencialmente literário. Mas ainda sim, é um blog, e como sempre falei, sou blogueira à moda antiga: blog para mim é diário, é para escrever o que a gente tá pensando e sentindo. É que eu geralmente penso e sinto livros (e eu tenho um outro blog, voltado pras minhas verborragias e válvula de escape para a cabeça cheia), rsrs.

Mas isso que estou escrevendo faz parte da minha realidade hoje. Como bibliotecária, como usuária de bibliotecas, como servidora pública federal. Tem me trazido algumas felicidades e muitas apurrinhações, e com o redemoinho de palavras doces e palavrões que está na minha cabeça, acho que merece um despejo público – antes que eu exploda, inclusive.

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3 pensamentos sobre “Sobre a vida de funcionária pública

  1. Pingback: Concursos, biblioteconomia e EU – MUQUIFO LITERÁRIO

  2. “Muitas pessoas que estavam paradas lá na minha unidade e me viram trabalhando, vieram ajudar, o que me deixou feliz.” É assim mesmo? Ninguém trabalha por lá? Ouço comentários sobre a má vontade dos servidores públicos, mas não imaginei que chegasse a esse ponto.

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    • Olha Lilian, como eu disse, estou falando da minha experiência. Eu cheguei em uma unidade considerada por outras pessoas uma das piores; comecei a mexer em um vespeiro em que ninguém queria colocar a mão, e que estava lá encostado fazia dois anos. Então sim, em especial em relação àquele problema (que não era algo pequeno, nem escondido – estava atravancando todos os corredores da unidade!) estavam todos sem trabalhar sim. E se as pessoas não estão mexendo nem no que está mais óbvio, e quando você não vê nenhum tipo de progresso em praticamente NENHUM projeto, como acreditar que uma equipe de tantas pessoas está efetivamente fazendo alguma coisa? É só perguntar entre eles: “qual é sua produtividade? em qual projeto você está trabalhando agora? como você tem ocupado seu tempo?” e a maioria nem sabe responder. Acredite, eu fiz isso.
      Não sei como estão as outras unidades, algumas eu conheço e sei que são bem ativas. Mas A MINHA, onde eu estou, está nesse estado no momento, infelizmente. Mas tenho esperança! Rs

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